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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Tradução The Economist - The Other D-Word

Segue abaixo um artigo traduzido da revista The Economist sobre a economia japonesa. O artigo em inglês pode ser lido em http://www.economist.com/businessfinance/displaystory.cfm?story_id=14943913

A doente economia japonesa

A OUTRA PALAVRA COM D

Está o Japão de volta na armadilha deflacionária?
Enquanto que recentemente os investidores tem estado divagando sobre a grande dívida, outra maligna “D-palavra” voltou a assombrá-los. Na sexta-feira, 20 de novembro, o gabinete japonês publicou um report mensal que pela primeira vez desde 2006 reconheceu que o país estava sofrendo deflação.

Os preços ao consumidor tem estado verdadeiramente caindo por meses; contudo, o passo de declínio acelerou durante o verão. Em setembro, os preços caíram em 2,2% comparado com o ano anterior. Isso é em parte devido ao país ainda estar repleto de capacidade em excesso depois do colapso das exportações no decorrer da crise financeira global, e também porque os preços do petróleo eram menores neste setembro, comparado com o mesmo mês do ano anterior. Há, todavia, mais problemas estruturais. Com o declínio da população, por exemplo, os varejistas são forçados a cortar preços para ganhar market share.

Não é coincidência que o novo governo de Yukio Hatoyama escolheu o dia quando o Banco do Japão estava sediando a reunião para estipular a taxa de juros e fazer estardalhaço sobre o assunto. Ambos o primeiro-ministro e o ministro da fazenda fizeram comentários preocupados. A sua sutil mensagem para o BJ foi clara: remova as medidas de estimulo monetário por sua conta e risco. Depois de dois dias de encontro, o BJ deixou a sua taxa inalterada (0,1%) e continuou a usar outras medidas, como a compra de títulos do governo, a qual acredita tornar a política monetária “extremamente acomodativa”

Porém o BJ não dá a impressão que está particularmente preocupado com os preços. Acredita que ainda não existem sinais claros de comportamento deflacionário nas corporações ou no público em geral, e que uma recuperação na demanda privada irá eventualmente retirar a economia de sua tendência de queda.
Alguns economistas vêem tal postura como uma complacência perigosa. As próprias previsões recentes do BJ predisseram que uma mudança ano-a-ano no IPC, excluindo-se alimentos, seria negativa nesse ano, no próximo e em 2011. Na quinta-feira, a OECD emitiu uma forte injunção ao BJ para lutar contra a deflação através do comprometimento de manter as taxas de juros em baixa e da implementação de medidas de quantitative easing até a inflação tornar-se “firmamente positiva”. Alguns advogam passos mais radicais para reinflacionar a economia, tais como cobrar os bancos no momento que depositam no BJ. Proponentes dessas medidas temem que os negócios irão retrair-se.

Da mesma forma, o governo deseja que o BJ mantenha sua parcela para estimular o crescimento, por que o déficit fiscal já está projetado a chegar em 10% do PIB no próximo ano e ainda existem as promessas de campanha. O governo deu-se uma dose de boas notícias em janeiro quando foi reportado que o crescimento econômico tinha crescido no terceiro trimestre, chegando a 4,8% em uma base anualizada, o qual foi melhor do que esperado. Mas a maior parte da variação foi devida ao gasto público; a demanda doméstica estava ainda fraca e o deflator da demanda-doméstica (uma medida de inflação excluindo os efeitos relacionados aos preços de importação e exportação) foi o mais baixo em mais do que 50 anos, de acordo com a Lombard Street Research, uma consultoria econômica.

Entretanto, não é só o BJ que precisa fazer mais para combater a inflação. O governo do senhor Hatoyama, desde setembro no cargo, até o momento, tem falhado em lançar políticas econômicas claras. A proposta dele é reequilibrar a economia por meio da demanda doméstica, contudo, não está claro como pretende fazê-lo. Entrementes, foi sugerido mexer com as práticas salariais e de contratação/demissão que os exportadores dizem iria enfraquecê-los em um tempo que eles já estão esforçando-se para resistir a um forte yen.

Aumentar a tendência de crescimento do Japão iria ser difícil, em se considerando o envelhecimento e diminuição da população. Porém, não é impossível: a produtividade poderia ser aumentada dramaticamente, em especial, no setor de serviços. Um período sustentado de alto crescimento iria ter uma efeito duplo de acabar com os problemas da dívida e da deflação. Se o susto dos duplo-D nas últimas semanas ajudar a convencer o governo do Sr. Hatoyama disso, seria um bom sinal. Tristemente, não se pode contar com isso.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tradução The Economist - "The nature of wealth"

Hoje em dia é complexa a definição do que é riqueza em termos reais e em termos financeiros. Este texto, "A natureza da riqueza", traduzido por mim, dá-nos um pouco de luz sobre a questão. O original, da revista The Economist, pode ser acessado em

http://www.economist.com/businessfinance/displaystory.cfm?story_id=14587262

Buttonwood

A Natureza da Riqueza

O mundo confundiu propriedades de origem financeira com as reais

No cerne da crise atual está a confusão fundamental sobre a natureza da riqueza. Pense nisso da perspectiva de um “marciano”. Fosse a um extraterrestre mostrado um quarto com lingotes de ouro, pilhas de notas de 20 dólares e uma série de números na tela de um computador, ele poderia ficar confuso em relação as suas funções. Nossa reverência por esses objetos pode parecer bizarra a ele como o comportamento do macho Construtor-de-Cetim (o qual decora o seu ninho com objetos brilhantes para atrair uma parceira) parece a nós.

Riqueza consiste de mercadorias e produtos que desejamos consumir ou de coisas (fábricas, maquinários e força de trabalho educada) que nos possibilitam produzir mais de tais mercadorias e serviços. Ativos financeiros surgem do desejo de postergar o consumo de forma que o dinheiro possa ser salvo, ou por motivos de precaução ou para investir com o objetivo de se consumir mais bens e serviços no futuro.

Visto dessa forma, o ativo financeiro não é “riqueza”, mas um clamor sobre a riqueza real. Se esses clamores multiplicam-se ou aumentam de preço, isso não significa que a riqueza agregada tenha aumentado. Se uma pizza é cortada em oito ao invés de quatro pedaços, não existe mais alimento a ser comido. Se a cada pessoa sentada na mesa dá-se frações de uma pizza, e o preço de cada fração aumenta de US$ 1 para US$ 2, a refeição continuará do mesmo tamanho.

A razão cabal pela qual o valor dos papéis (ações) cresce com o passar do tempo, por exemplo, é que elas estão ligadas aos bens e serviços produzidos pelas companhias. Ao passo que há crescimento da economia, ocorre o aumento das receitas de tais firmas. Assumindo que as margens permaneçam as mesmas com o passar do tempo, os lucros irão aumentar e, da mesma forma, o fluxo de dinheiro para os acionistas.

Essa verdade é obscurecida pelo ciclo econômico, a qual faz com que as receitas e as margens flutuem, e pelas vicissitudes do sentimento do investidor, o qual faz com que os pedaços (ações) sejam desvalorizados ou revalorizados (o retorno sobre o dividendo em alta e baixa). Um aumento no preço da ação que é conseqüência de um re-rateio não nos torna mais ricos no agregado, ao menos que o re-rateio represente uma predição acurada sobre uma melhoria na taxa de crescimento da economia no longo prazo.

No entanto, as pessoas utilizam a Bolsa de Valores como um barômetro da saúde econômica. Dessa forma, um aumento no mercado acionário pode ser (e tem sido) visto pelo governo e os banqueiros centrais como uma evidência que a economia está tomando o caminho certo. Isso pode conduzir a erros de política, como uma postura monetária frouxa, e mais exuberância irracional.

O mercado imobiliário é mais complicado do que o acionário, visto que as pessoas utilizam as suas casas (abrigo, relaxamento) enquanto, simultaneamente, tratam-nas como propriedades. Mesmo assim, um aumento no preço das casas que supere o crescimento econômico (em %) não torna a sociedade mais rica. Ao invés disso, tudo que é alcançado é a transferência de riqueza dos novos compradores para os aposentados que estão saindo do mercado de propriedades.

Na teoria, os preços dos imóveis podem aumentar mais rápido do que o PIB por algum tempo se os cidadãos decidirem devotar mais de sua renda para adquirir imóveis (por exemplo, eles podem preferir um apartamento maior a um carro maior). Na prática, é difícil separar tais mudanças estruturais da especulação que é proeminente em todos os booms de propriedade.

É a ligação entre a especulação e o preço das ações que explica a crise. A habilidade de se tomar emprestado dinheiro para comprar ações fomentou a subida dos preços das ações. E o efeito-riqueza sobre a valorização dos preços persuadiu aos países de língua inglesa a tomar emprestado dinheiro para sustentar o consumo.

Alguns meses atrás, A BBC transmitiu um programa sobre o uso do cartão de crédito. Um homem falou que se sentia “mais rico” porque ele tinha sido premiado com um limite de crédito de cinco mil libras (US$ 8,000). É claro que, assim que usou o cartão ele estava mais pobre. Não somente ele teve de pagar as 5 mil libras, como também a taxa de juros de dois dígitos. Similarmente, aqueles que compram uma ação supervalorizada com dinheiro emprestado não se tornaram mais ricos, mas sim, pobres.

Pensar sobre a riqueza dessa forma também é útil quando se tratando de pacotes de resgate para a economia. Essas propostas irão aumentar a quantidade de mercadorias e serviços que a economia produz no longo prazo, ou terão conseqüências que, na verdade, restringem a atividade econômica? Será que a política de quantitative easing realmente alimenta a criação de riqueza ou simplesmente cria mais “direitos” em relação a um conjunto de propriedades já existentes (especulação)?

Os bancos centrais estão repetidamente intervindo para salvar os mercados financeiros, ou riqueza de papel, nos últimos 20 anos. Mas eles levaram os preços a níveis que simplesmente não refletiam os fundamentos de longo prazo? Os esquemas engenhosos de John Law, um financista do século XVIII, para manter o valor das ações da trading do Mississipi não foram vitoriosos no final, por que o delta não era o El Dorado prometido aos investidores, porém um fétido lamaçal.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Building BRICS of growth - "Construido muros de crescimento"

Complementando o texto publicado na semana passada, trago-vos a tradução livre do texto Building BRICS of growth, vinculado na revista The Economist de 7-13 de junho, disponível no site pelo link http://www.economist.com/finance/displaystory.cfm?story_id=11488749.

O maior boom de investimentos da história está em andamento. Mais da metade dos investimentos em infra-estrutura ao redor do mundo está tomando corpo nas economias emergentes, onde a venda de retroescavadeiras quintuplicou desde 2000. No total, elas (em estimativa) irão gastar U$ 1,2 trilhão em estradas, ferrovias, eletricidade, telecomunicações e outros projetos esse ano, equivalente a 6% dos seus PIBS combinados – duas vezes, em média, a taxa de investimento registrada nos países desenvolvidos – isto quer dizer que o investimento total fixo pode aumentar para surpreendentes 16% em termos reais nesse ano, de acordo com o HSBC, enquanto nas ricas economias será achatado. Esse tipo de inversão ajudará na manutenção do crescimento econômico dessas economias neste ano, porquanto a economia americana desacelera – e para muitos anos vindouros.

Compondo as previsões para esse ano, Morgan Stanley prediz que as economias emergentes irão gastar U$ 22 trilhões (em preços atuais) em infra-estrutura nos próximos 10 anos, dos quais 43% serão de responsabilidade da China. Ela já está investindo 12% do seu PIB em infra-estrutura, constatando-se que gastou (em termos reais), nos últimos cinco anos, soma semelhante ao montante invertido em todo o século XX. No ano passado, o Brasil lançou um plano quadrienal de gastos da ordem de U$ 300 bilhões com o intuito de modernizar suas ferrovias, usinas e portos. O governo indiano no seu plano qüinqüenal pincelou valores de U$ 500 bilhões em projetos de infra-estrutura. Rússia, países do Golfo Pérsico e outros exportadores de petróleo estão alocando parte de suas receitas petrolíferas em investimentos fixos.

Boa infra-estrutura tem sido o carro-chefe (junto à estabilidade macroeconômica) no que diz respeito à busca de desenvolvimento econômico, de estradas e aquedutos na Roma antiga até o boom das ferrovias na Inglaterra do século XIX. Mas nunca os gastos com infra-estrutura tiveram tal participação sobre o PIB como atualmente. Parte disso é explicado pelo fato de que existem mais países em processo de industrialização, mas também porque a China e outros países estão investindo a passos largos, jamais imaginados pelas nações ricas. Mesmo nos picos das inversões para a construção ferroviária na Inglaterra, os valores não passaram de 5% do PIB.

Investimentos em infra-estrutura podem trazer grandes ganhos econômicos. Construir estradas e ferrovias imediatamente aumenta a renda e o emprego, e ajuda a liberar as perspectivas de crescimento futuro – sendo o dinheiro gasto sabiamente, é claro. Transporte melhorado ajuda os fazendeiros (camponeses) a levar a sua produção às cidades, e aos produtores de manufaturas a exportar seus produtos além-mar. Países com custos de transporte baixos tendem a ser mais abertos para o comércio exterior e, por conta disso, alcançam crescimento rapidamente. Água limpa e saneamento básico aumentam a qualidade do capital humano, assim majorando os níveis de produtividade do trabalho. O Banco Mundial estima que a cada 1% de aumento no estoque de infra-estrutura de uma nação está associado a 1% no nível do PIB. Outros estudos concluem que o investimento maior do leste asiático em relação à América Latina explana a diferença na obtenção de crescimento dentre as duas regiões.

Em documento recentemente lançado pela Goldman Sachs, argumenta-se que o gasto em infra-estrutura não é somente causa de crescimento econômico, mas conseqüência dele. A partir do enriquecimento das pessoas, há tendência de aumento da população nas cidades, o que acarreta em maior demanda por eletricidade, transportes, saneamento básico e moradia. Essa relação mútua leva ao crescimento econômico e investimento. O banco (GS) desenvolveu um modelo que usa as expectativas de crescimento na renda, urbanização e população para prever futuras demandas no que tange à infra-estrutura.

A Urbanização detém os maiores impactos nas demandas por eletricidade. Goldman calcula que 1% a mais de pessoas residindo em cidades, eleva em 1.8% a demanda de energia como capacidade natural instalada (disponível para consumo). Sendo 1% de aumento na renda per capita, considera-se 0,5% de pressão sobre a demanda existente. Reunindo todas essas constatações, a capacidade de eletricidade deve majorar-se em 140% na China e em 80% na Índia até os meados da próxima década (2008-2018). Viagens aéreas – e porquanto os aeroportos – verão a mais rápida expansão da demanda, porque é o mais sensível à demanda: a cada 1% de majoração da renda per capita tem como conseqüência 1,4% de aumento sobre o numero de pessoas que utilizam esse meio de transporte. Segundo previsões, a variação positiva em número de passageiros utilizando o transporte aéreo será de 350% e 200%, respectivamente, na China e na Índia.

Como o aumento da renda per capita e das taxas de urbanização tomam passo mais concreto na China, ela ultrapassará a Índia em níveis de infra-estrutura. China pode adicionar treze vezes mais linhas-fixas de telefone, sete vezes mais passageiros para vôos e seis vezes mais capacidade de geração de energia elétrica em cotejamento com a Índia. Brasil e Rússia, mais urbanizados e ricos (implicando menor crescimento da renda), verão crescimento mais modesto em infra-estrutura.

Exaurido Boom

Como as economias emergentes Irã o financiar todo esse gasto? As finanças da maioria dos países emergentes estão em boas condições. Como um grupo (BRIC), eles estão perto de um balanço estável, embora alguns, como a Índia, exibem grandes déficits. Mesmo assim, a vasta escala de investimentos necessitará de dinheiro do setor privado. Para atraí-lo, as economias emergentes deverão oferecer um retorno descente, o que irá requerer reformas no sistema regulatório e a mudança para negociações a preço de mercado (justas por vias de concorrência). Na Índia, somente a metade da energia consumida é efetivamente paga, porque ela é roubada ou as contas não são pagas, simplesmente. Portanto, a quantidade massiva de investimentos em infra-estrutura pode encorajar o desenvolvimento do mercado de títulos de longo prazo, amortecendo um pouco a sangria inerente.

O boom global em infra-estrutura tem implicações globais. Investimento majorado significa maior importação de bens de capital (máquinas), o que operará na redução do superávit comercial chinês e em outros locais, reduzindo as desigualdades mundiais em termos de troca. Demanda crescente por materiais de construção vai manter os preços das commodities em alta.Por último, mas não menos importante, será o impacto negativo no meio ambiente. Com 75% de acréscimo na demanda por eletricidade por parte dos países emergentes na próxima década, piorará a condição do ar e do aquecimento global. Muitos temem que o projeto da represa Três Gargantas, o maior projeto hidroelétrico do mundo, poderá causar grandes danos ao meio ambiente. O grus japonensis é o pássaro símbolo da China e está em extinção. Algumas pessoas gostariam que as gruas das construções também seguissem um caminho mais lento.

OBS: existem outros textos na mesma edição da THE ECONOMIST e que trazem a influência de Índia e China nos índices de poluição global para o futuro. Se tiverem interesse, gentileza notar
http://www.economist.com/displaystory.cfm?story_id=11488548

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Índia e China, dupla dinâmica!

Enquanto o Brasil vangloria-se da obtenção do grau de investimento (1) e da criação do FSB, descuida-se das suas relações exteriores. Ao invés de se coadunar com os seus contrapartes falidos do MERCOSUL (Argentina, Paraguai, Uruguai), deveria focalizar no âmbito multilateral, por exemplo, no que tange ao mercado africano. Ou será que o foco do Brasil continua sendo a posição de “celeiro do mundo”? Neste texto, analisamos a aproximação comercial que está em transito entre Índia e China, fomentada pela competição inerente das duas nações mais populosas do planeta e de características complementares que apresentam. Vejamos.

Neste momento de crise internacional no que diz respeito ao mercado alimentar, a África está sendo muito visada como destino de investimentos, seja por projetos da ONU e da FAO, ou de instituições privadas nacionais (especialmente Odebrecht e Grupo Votorantim) e internacionais (Grupo TATA, ONGC, Huawei). No que tange à Índia, a sua participação na formação do continente africano advém dos tempos de domínio britânico, onde mais de um milhão de trabalhadores indianos foram deslocados para a construção de ferrovias no leste da África (há descendência numerosa). Hoje em dia, a Índia trabalha sua postura de marketing através da venda de aparelhos celulares e serviços de internet a preços reduzidos, além de optar por investimentos centralizados em alta tecnologia (África do Sul) e exploração de recursos naturais diversos, como o petróleo angolano e nigeriano. Por parte da China, o que se vê é um diferente approach, visto que as estatais chinesas preferem optar por investimentos grandiosos em infra-estrutura e construção civil, em troca de benesses na extração de minérios e petróleo. Além disso, há concessão de empréstimos polpudos para nações com problemas de tirania. A única questão que aborrece os africanos é que eles preferem trazer chineses ao invés de alocar os trabalhadores locais nas obras. Este é um exemplo da influência dual dos colegas de denominação BRIC.

Segundo opinião de Tarun Khanna, um professor indiano da Harvard Business School, “their social and economic systems are vastly different [...] but they have strengths that could be complementary” (2). Segundo previsões, o comércio bilateral entre Índia e China alcançará US$ 40 bilhões em 2010, em especial, pelas grandes inversões de IED e aumento da classe média (a qual fomenta o consumo e a inflação). É pequeno em níveis brutos. Normalmente, o que ocorre é o seguinte: a Índia exporta matérias-primas (ferro, algodão, plásticos, pedras preciosas), acontecendo o processo de agregação de valor na China, sendo reexportado à Índia um produto pronto, como, a título de ilustração, os compostos orgânicos que são utilizados pelas empresas farmacêuticas indianas. Se você reparar na questão do número de pessoas com aparelho celular na Índia, verá que o custo dele é baixo, tanto quanto o é da ligação. A partir daí, vemos a união da capacidade de outsourcing indiana (serviços de administração e controle produtivo das gigantes como WIPRO, TCS, INFOSYS) e a capacidade manufatureira chinesa (sublinhando a participação da Huawei, produtora de aparelhos de telecomunicações, considerada uma das multinacionais dos países emergentes). Como nos diz Pradipta Bagchi, gerente de comunicações corporativas da Tata Consultancy Services (TCS) em Mumbai, “ some guy is making a part in China, some Guy is making something in Korea and they are putting it together in Japan and shipping it to the US. The need for technology to keep people talking to each other is very important” (3). A grande vantagem dessa relação Índia-China está na escala potencial dos mercados (40% da população mundial – 2,4 bilhões) e do poderia privado intrínseco.

Se a extensão e profundidade da recessão norte-americana não forem realmente extremas, e a corrente de globalização continuar, há previsão de que, para 2050, considerando-se níveis de crescimento atuais de 11% e 9%, respectivamente, para China e Índia, veremos uma nova classificação no que tange ao tamanho das economias do mundo (1° China, 2° EUA, 3° Índia). Apesar disso, como nos apontam a revista Global Finance (4) e The Economist (5), há ainda postura protecionista no que tange ao mercado de capitais, o que é um problema em tempos de crise de crédito. Muitas outras reflexões ainda são pertinentes, como a questão do impacto ambiental dessas nações (altamente dependentes do carvão e petróleo) e de problemáticas políticas inerentes ao seu sistema de mercado que mescla subsídios públicos e investimentos privados. Abaixo, ampla bibliografia para que os leitores do blog aprofundem-se no assunto.

Fontes e citações:

(1) Para ver mais sobre detalhes da concessão de grau de investimento, notar: http://economiapratica.blogspot.com/search?q=grau+de+investimento e também o infográfico magnífico disponível no site do Estadão - http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowEspeciais!destaque.action?destaque.idEspeciais=610

(2) Tradução livre: Os sistemas econômico e social deles são vastamente diferentes [...] mas eles tem capacidades que podem ser complementares. Sobre as opiniões de Tarun Khanna, acompanhe a entrevista disponível em inglês em http://hbswk.hbs.edu/item/5766.html. Caso seja necessária a tradução, favor solicitar no mail matbonetto@terra.com.br

(3) Tradução livre:"alguém está produzindo uma parte na China, outro está fazendo algo na Córeia e eles estão unindo tudo no Japão, para depois enviar ao Estados Unidos. A necessidade de tecnologia para manter as pessoas se comunicando é fundamental".

(4) Vejam a reportagem na íntegra em inglês, da Revista Global Finance, em http://www.gfmag.com/index.php?idPage=858

(5) Verificar reportangens em inglês no site da Revista The Economist

Obs: quaisquer traduções que sejam necessárias ref. às fontes informadas, serão disponibilizadas gratuitamente via solicitação de mail matbonetto@terra.com.br . O tempo de tradução varia de cada publicação, sendo o máximo de três dias.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Tradução do texto - "The silent tsunami"

Segue abaixo a tradução do texto publicado na revista The Economist, chamado The silent tsunami, disponível no original em inglês em: http://www.economist.com/opinion/displayStory.cfm?Story_ID=11050146, como base para compreensão de minha postagem posterior sobre a crise nos preços dos alimentos.

Imagens da fome sempre mostram olhos passivos e pessoas engolindo a seco. As colheitas falham por causa da guerra ou outros tipos de conflitos; a origem da crise é repentina e localizada. As suas conseqüências recaem sobre aqueles que estão na margem.

A situação atual é diferente. “É um tsunami silencioso”, diz Josette Sheeran do Programa Mundial de Alimentos, uma agência das Nações Unidas. A onda de inflação dos alimentos está se movendo ao redor do mundo, deixando revoltas e instabilidade governamental no seu caminho. Pela primeira vez em 30 anos, os protestos em relação a alimentos estão em erupção em diversas partes do globo. Bangladesh está em tumulto; mesmo a China está preocupada. Nos outros lugares, a crise alimentícia de 2008 irá testar a assertiva de Amartya Sen, economista indiano, que as grandes fomes não acontecem nas democracias.

Fome tradicionalmente significa extrema falta de alimentos. As medidas da crise atual são miséria e malnutrição. As classes médias nos países pobres estão renegando os custos de saúde e cortando as carnes para poder comer três refeições ao dia. Os realmente pobres, os quais recebem US$ 2 ao dia, estão tirando as crianças da escola e cortando os custos com vegetais, tendo em vista a obtenção do arroz. Aqueles com US$ 1 ao dia, estão evitando carnes, vegetais e uma ou duas refeições, para ainda dispor de um pouco de arroz. Aqueles, por fim, que contabilizam US$ 0,50, está à beira do desastre.

Aproximadamente, um bilhão de pessoas vive com US$ 1 ao dia. Se, numa estimativa conservadora, o custo dos alimentos subir em 20% (em alguns lugares, subiu muito mais), 100 milhões de pessoas podem ser forçadas a retornar a esse nível, medida comum de absoluta pobreza. Em alguns países, isso pode anular os ganhos em redução de pobreza alcançados durante a década passada de crescimento econômico. Por causa da confusão nos mercados, as revoltas civis estão aumentando, e, da mesma forma, o comércio e a abertura comercial em si podem ser dinamitadas, sendo que a crise de alimentos de 2008 pode se tornar um desafio à globalização.

Os países ricos devem tratar dos problemas alimentares tão seriamente quanto tratam os do crédito. Os responsáveis no Banco Mundial e nas Nações Unidas estão clamando por um “New Deal” para alimentos. O clamor é justificado. Mas encontrar o tipo correto de auxílio não é tão fácil, pois não existe uma solução única e, outrossim, alguma ajuda de curto prazo pode trazer conseqüências negativas para o futuro.

O ponto de princípio deveria ser que o aumento de preços é mais forte em alguns lugares do que outros. Exportadores de alimentos, e em países onde os agricultores são auto-suficientes, ou vendedores líquidos, beneficiam-se. Alguns países – como aqueles no Oeste da África, os quais importam produtos básicos para a sobrevivência, ou Bangladesh, com o seu grande número de trabalhadores sem-terra – arriscam-se à ruína e ao combate civil. Por causa da severidade lá, o primeiro passo deve ser remendar os buracos da rede de segurança alimentar do mundo. Isso significa financiar o Programa Mundial de Alimentação (do inglês, World Food Programme, WFP) corretamente. O WFP é o maior distribuidor de ajuda alimentar e a mais importante barreira entre pessoas famintas e a total desnutrição. À semelhança de uma família que é remunerada com US$ 1 ao dia em um país em desenvolvimento, o seu poder de compra foi reduzido com o aumento do custo dos grãos. Meramente para distribuir a mesma quantidade de comida como no ano passado, a WFP necessita – e deveria obter – um valor extra de US$ 700 milhões.

Os problemas em vários locais não são de total miséria, então a WFP deveria ter a permissão para expandir a sua missão. No momento, ela compra grãos e doa para áreas aonde existe pouco ou nenhum alimento. Isso é necessário para lugares realmente miseráveis, mas isso fere os mercados locais. Na maioria dos lugares, não existe escassez e o desafio é diminuir os preços locais sem causar grandes prejuízos aos agricultores. A melhor solução nesse caso é a distribuição de dinheiro, e não alimento – por meio do suporte de programas de proteção social e de alimento por trabalho aos pobres. A agência pode ajudar aqui, embora o principal – bilhões de dólares – terão de advir dos governos e de instituições de crédito do Oeste.

Essas ações são paliativas. A crise alimentar de 2008 revelou as falhas do mercado em toda a cadeia. Qualquer “New Deal” que tentar resolver o problema de longo prazo deverá abarcar a importância do pequeno agricultor.

Em geral, os governos deveriam liberar os mercados e não intervir ainda mais nos mesmos. Os alimentos são influenciados por medidas estatais a toda hora, de subsídios a empresas alimentícias (seja em qualquer parte da cadeia, desde a trituração do trigo, por exemplo, até o pão em si) ou para os agricultores deixarem as terras sem cultivo (reduzindo a oferta e pressionando os preços). A manutenção dessas cotas, subsídios e controles é objetivada a planificar as desigualdades internas que poderiam ser diretamente ajustadas no mais desregulada parte da cadeia: o mercado internacional.

Por décadas, a attitude supracitada colaborou para os preços baixos e trabalhou como desincentivo aos agricultores pobres. Agora, o oposto está ocorrendo. Como resultado de outra distorção governamental – dessa vez, subsídios para biocombustíveis no mundo desenvolvido – preços ultrapassam o teto. O governo exagerou ao passo que estipulou cotas de exportação (Argentina) e restrições ao comércio, pressionando os preços para cima novamente. No passado, o principal argumento para liberar a agricultura era que isso iria aumentar os preços e conceder incremento nos retorno do investimento na plantação. Agora que os preços estão altos, o argumento está servindo a razão oposta: liberalização irá reduzir preços, enquanto deixará os agricultores com uma renda decente.

Existe uma exceção quanto ao desligamento do governo da agricultura. Ele pode disponibilizar a tecnologia básica: executando projetos de irrigação de larga escala (capital intensiva), além das possibilidades dos pequenos agricultores empreenderem, ou pagando pelo conhecimento científico que ajuda a produzir sementes de alta produtividade. Mas se deve tomar cuidado. Freqüentemente – como na Europa, onde a superstição renega a modificação genética, os governos estão longe de desenvolver a tecnologia – isto é, acabam por atrapalhar os avanços. Com certeza de que o caminho para alimentar o mundo não é o cultivo de mais terras, mas o aumento do produto/hectare, a ciência é crucial.

A agricultura está no esquecimento. O mundo de alimento barato se foi. Com sorte e boas políticas, surgirá um novo equilíbrio. A transição será mais custosa e dolorosa do que se esperava. Mas as mudanças são desejadas, e os governos devem atentar para reduzir os efeitos malignos, mas não atrapalhar o andamento do processo.