O ano de 2008 iniciou-se de forma promissora quando a empresa indiana Tata anunciou a compra das marcas Jaguar e Land Rover, que pertenciam à empresa automobilística Ford, num negócio que alcançou as cifras de US$ 2,3 bilhões. Alguns meses após este fato, a própria Tata Motors lançou o seu modelo de baixo custo, o “Nano”. Empresas do setor de serviços como a Infosys, TCS e Wipro, o qual representa mais de 50% do crescimento do PIB, mantiveram a tendência de fortalecimento de sua marca nos mercados mundiais.
De princípio, isso seria clara indicação de que a situação geral da economia indiana está com viés positivo. Infelizmente, as aparências enganam. Como o próprio ministro das finanças do país, Palaniappan Chidambaram, pronunciou: “O tigre está deveras ameaçado”. E ele não fala isoladamente da espécie animal e sua decadente população, mas evidentemente da situação em que se encontra um dos grandes representantes dos BRICS: Índia. Após a instauração da “licença Raj”, medida a qual englobou cortes de tarifas, impostos e desregulamentação de negócios, por Manmohan Singh em 1990 – ele é o atual presidente - houve uma das maiores reviravoltas no que tange ao desenvolvimento do setor privado indiano e a manutenção de níveis brutos de expansão do PIB em 6% no período 1992/2002.
Entretanto, se depender do setor público e suas pequenas distorções: suporte comunista ao sistema de castas, problemas de corte de energia, leis rígidas de trabalho, problemas históricos com o vizinho Paquistão (devido à Caxemira) e subinvestimento em educação não é possível identificar se a manutenção dos níveis atuais de desenvolvimento econômico será realidade no longo prazo.
Em adição aos problemas gerais do país, deve-se ser sublinhada a situação da infra-estrutura, destacada aqui em um parágrafo separado, indicando a sua magnitude. No que tange à questão sanitária, segundo dados governamentais, não passa de 13% o tratamento de esgoto (veja-se o próprio rio Ganges, que apesar de seu valor religioso no que tange aos banhos sagrados, é agraciado com cadáveres de pessoas). Como conseqüência quase que indubitável são as degradantes doenças que afetam, em grande intensidade, crianças. No que tange à malha rodoviária, alcançando 3,3 milhões km, só foram feitos reparos em 2% do total, nos últimos 15 anos. Se você decidir usar automóvel dentro da cidade de Delhi, a maior velocidade a ser registrada no seu velocímetro será de 27 km/h (São Paulo é semelhante, a propósito, nos horários de pico).
O débito das contas do governo atinge 4,3% do PIB (sem contar os gastos com subsídios à gasolina e fertilizantes, da ordem de 3,5% do PIB). Para efetivamente suprir esse débito, o governo pressiona as instituições bancárias, fundos de pensão e seguradoras locais a adquirirem seus títulos. Como o investimento privado ocorre somente via alavancagem financeira e ou por parte dos lucros, as empresas mais organizadas (IT ou conglomerado Tata) recorrem ao mercado de capitais, o que contribui para o fortalecimento do rupee e incremento das reservas estéreis do Banco Central Indiano, canal comprometido, diga-se de passagem, pela crise financeira internacional. Como a via legal de transferência não funciona efetivamente, o governo cogita a possibilidade de apagar a dívida de cerca de 30 milhões de dólares incidentes em pequenos produtores, a partir da premissa do não-envolvimento de tantos mecanismos de Estado (a velha burocracia tão conhecida no Brasil). Segundo dados do Congresso indiano, mesmo com a teórica obrigação constitucional de acesso à saúde, educação e água potável, a Índia registra um dos piores níveis de inversão estatal nessas prioridades, num panorama global. As melhorias - leia-se reformas - de cunho lendário (pregadas por Manmohan Singh, eleito primeiro-ministro em 2004) a saber: a transparência das contas governamentais, a melhoria no sistema de coleta de impostos (de estrutura arcaica em um país que é líder no desenvolvimento de serviços de informática) e criação de projetos de desenvolvimento regional são ainda matéria da esperança e não do fato. Talvez isto mude com as próximas eleições, previstas para este ano.
À intenção de complemento, tomando-se para isso o site http://www.cmie.com/, ainda se destaca o nível inflacionário atual – 12,1% - o qual contribui para o achatamento da capacidade de demanda interna. Mesmo com vaga promessa de aumento salarial e do corte de alguns impostos sobre consumo no curto prazo, a melhoria da qualidade de vida aos mais necessitados está ancorada em um tigre sim, de bengala.
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terça-feira, 6 de janeiro de 2009
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Building BRICS of growth - "Construido muros de crescimento"
Complementando o texto publicado na semana passada, trago-vos a tradução livre do texto Building BRICS of growth, vinculado na revista The Economist de 7-13 de junho, disponível no site pelo link http://www.economist.com/finance/displaystory.cfm?story_id=11488749.
O maior boom de investimentos da história está em andamento. Mais da metade dos investimentos em infra-estrutura ao redor do mundo está tomando corpo nas economias emergentes, onde a venda de retroescavadeiras quintuplicou desde 2000. No total, elas (em estimativa) irão gastar U$ 1,2 trilhão em estradas, ferrovias, eletricidade, telecomunicações e outros projetos esse ano, equivalente a 6% dos seus PIBS combinados – duas vezes, em média, a taxa de investimento registrada nos países desenvolvidos – isto quer dizer que o investimento total fixo pode aumentar para surpreendentes 16% em termos reais nesse ano, de acordo com o HSBC, enquanto nas ricas economias será achatado. Esse tipo de inversão ajudará na manutenção do crescimento econômico dessas economias neste ano, porquanto a economia americana desacelera – e para muitos anos vindouros.
Compondo as previsões para esse ano, Morgan Stanley prediz que as economias emergentes irão gastar U$ 22 trilhões (em preços atuais) em infra-estrutura nos próximos 10 anos, dos quais 43% serão de responsabilidade da China. Ela já está investindo 12% do seu PIB em infra-estrutura, constatando-se que gastou (em termos reais), nos últimos cinco anos, soma semelhante ao montante invertido em todo o século XX. No ano passado, o Brasil lançou um plano quadrienal de gastos da ordem de U$ 300 bilhões com o intuito de modernizar suas ferrovias, usinas e portos. O governo indiano no seu plano qüinqüenal pincelou valores de U$ 500 bilhões em projetos de infra-estrutura. Rússia, países do Golfo Pérsico e outros exportadores de petróleo estão alocando parte de suas receitas petrolíferas em investimentos fixos.
Boa infra-estrutura tem sido o carro-chefe (junto à estabilidade macroeconômica) no que diz respeito à busca de desenvolvimento econômico, de estradas e aquedutos na Roma antiga até o boom das ferrovias na Inglaterra do século XIX. Mas nunca os gastos com infra-estrutura tiveram tal participação sobre o PIB como atualmente. Parte disso é explicado pelo fato de que existem mais países em processo de industrialização, mas também porque a China e outros países estão investindo a passos largos, jamais imaginados pelas nações ricas. Mesmo nos picos das inversões para a construção ferroviária na Inglaterra, os valores não passaram de 5% do PIB.
Investimentos em infra-estrutura podem trazer grandes ganhos econômicos. Construir estradas e ferrovias imediatamente aumenta a renda e o emprego, e ajuda a liberar as perspectivas de crescimento futuro – sendo o dinheiro gasto sabiamente, é claro. Transporte melhorado ajuda os fazendeiros (camponeses) a levar a sua produção às cidades, e aos produtores de manufaturas a exportar seus produtos além-mar. Países com custos de transporte baixos tendem a ser mais abertos para o comércio exterior e, por conta disso, alcançam crescimento rapidamente. Água limpa e saneamento básico aumentam a qualidade do capital humano, assim majorando os níveis de produtividade do trabalho. O Banco Mundial estima que a cada 1% de aumento no estoque de infra-estrutura de uma nação está associado a 1% no nível do PIB. Outros estudos concluem que o investimento maior do leste asiático em relação à América Latina explana a diferença na obtenção de crescimento dentre as duas regiões.
Em documento recentemente lançado pela Goldman Sachs, argumenta-se que o gasto em infra-estrutura não é somente causa de crescimento econômico, mas conseqüência dele. A partir do enriquecimento das pessoas, há tendência de aumento da população nas cidades, o que acarreta em maior demanda por eletricidade, transportes, saneamento básico e moradia. Essa relação mútua leva ao crescimento econômico e investimento. O banco (GS) desenvolveu um modelo que usa as expectativas de crescimento na renda, urbanização e população para prever futuras demandas no que tange à infra-estrutura.
A Urbanização detém os maiores impactos nas demandas por eletricidade. Goldman calcula que 1% a mais de pessoas residindo em cidades, eleva em 1.8% a demanda de energia como capacidade natural instalada (disponível para consumo). Sendo 1% de aumento na renda per capita, considera-se 0,5% de pressão sobre a demanda existente. Reunindo todas essas constatações, a capacidade de eletricidade deve majorar-se em 140% na China e em 80% na Índia até os meados da próxima década (2008-2018). Viagens aéreas – e porquanto os aeroportos – verão a mais rápida expansão da demanda, porque é o mais sensível à demanda: a cada 1% de majoração da renda per capita tem como conseqüência 1,4% de aumento sobre o numero de pessoas que utilizam esse meio de transporte. Segundo previsões, a variação positiva em número de passageiros utilizando o transporte aéreo será de 350% e 200%, respectivamente, na China e na Índia.
Como o aumento da renda per capita e das taxas de urbanização tomam passo mais concreto na China, ela ultrapassará a Índia em níveis de infra-estrutura. China pode adicionar treze vezes mais linhas-fixas de telefone, sete vezes mais passageiros para vôos e seis vezes mais capacidade de geração de energia elétrica em cotejamento com a Índia. Brasil e Rússia, mais urbanizados e ricos (implicando menor crescimento da renda), verão crescimento mais modesto em infra-estrutura.
Exaurido Boom
Como as economias emergentes Irã o financiar todo esse gasto? As finanças da maioria dos países emergentes estão em boas condições. Como um grupo (BRIC), eles estão perto de um balanço estável, embora alguns, como a Índia, exibem grandes déficits. Mesmo assim, a vasta escala de investimentos necessitará de dinheiro do setor privado. Para atraí-lo, as economias emergentes deverão oferecer um retorno descente, o que irá requerer reformas no sistema regulatório e a mudança para negociações a preço de mercado (justas por vias de concorrência). Na Índia, somente a metade da energia consumida é efetivamente paga, porque ela é roubada ou as contas não são pagas, simplesmente. Portanto, a quantidade massiva de investimentos em infra-estrutura pode encorajar o desenvolvimento do mercado de títulos de longo prazo, amortecendo um pouco a sangria inerente.
O boom global em infra-estrutura tem implicações globais. Investimento majorado significa maior importação de bens de capital (máquinas), o que operará na redução do superávit comercial chinês e em outros locais, reduzindo as desigualdades mundiais em termos de troca. Demanda crescente por materiais de construção vai manter os preços das commodities em alta.Por último, mas não menos importante, será o impacto negativo no meio ambiente. Com 75% de acréscimo na demanda por eletricidade por parte dos países emergentes na próxima década, piorará a condição do ar e do aquecimento global. Muitos temem que o projeto da represa Três Gargantas, o maior projeto hidroelétrico do mundo, poderá causar grandes danos ao meio ambiente. O grus japonensis é o pássaro símbolo da China e está em extinção. Algumas pessoas gostariam que as gruas das construções também seguissem um caminho mais lento.
OBS: existem outros textos na mesma edição da THE ECONOMIST e que trazem a influência de Índia e China nos índices de poluição global para o futuro. Se tiverem interesse, gentileza notar
http://www.economist.com/displaystory.cfm?story_id=11488548
O maior boom de investimentos da história está em andamento. Mais da metade dos investimentos em infra-estrutura ao redor do mundo está tomando corpo nas economias emergentes, onde a venda de retroescavadeiras quintuplicou desde 2000. No total, elas (em estimativa) irão gastar U$ 1,2 trilhão em estradas, ferrovias, eletricidade, telecomunicações e outros projetos esse ano, equivalente a 6% dos seus PIBS combinados – duas vezes, em média, a taxa de investimento registrada nos países desenvolvidos – isto quer dizer que o investimento total fixo pode aumentar para surpreendentes 16% em termos reais nesse ano, de acordo com o HSBC, enquanto nas ricas economias será achatado. Esse tipo de inversão ajudará na manutenção do crescimento econômico dessas economias neste ano, porquanto a economia americana desacelera – e para muitos anos vindouros.
Compondo as previsões para esse ano, Morgan Stanley prediz que as economias emergentes irão gastar U$ 22 trilhões (em preços atuais) em infra-estrutura nos próximos 10 anos, dos quais 43% serão de responsabilidade da China. Ela já está investindo 12% do seu PIB em infra-estrutura, constatando-se que gastou (em termos reais), nos últimos cinco anos, soma semelhante ao montante invertido em todo o século XX. No ano passado, o Brasil lançou um plano quadrienal de gastos da ordem de U$ 300 bilhões com o intuito de modernizar suas ferrovias, usinas e portos. O governo indiano no seu plano qüinqüenal pincelou valores de U$ 500 bilhões em projetos de infra-estrutura. Rússia, países do Golfo Pérsico e outros exportadores de petróleo estão alocando parte de suas receitas petrolíferas em investimentos fixos.
Boa infra-estrutura tem sido o carro-chefe (junto à estabilidade macroeconômica) no que diz respeito à busca de desenvolvimento econômico, de estradas e aquedutos na Roma antiga até o boom das ferrovias na Inglaterra do século XIX. Mas nunca os gastos com infra-estrutura tiveram tal participação sobre o PIB como atualmente. Parte disso é explicado pelo fato de que existem mais países em processo de industrialização, mas também porque a China e outros países estão investindo a passos largos, jamais imaginados pelas nações ricas. Mesmo nos picos das inversões para a construção ferroviária na Inglaterra, os valores não passaram de 5% do PIB.
Investimentos em infra-estrutura podem trazer grandes ganhos econômicos. Construir estradas e ferrovias imediatamente aumenta a renda e o emprego, e ajuda a liberar as perspectivas de crescimento futuro – sendo o dinheiro gasto sabiamente, é claro. Transporte melhorado ajuda os fazendeiros (camponeses) a levar a sua produção às cidades, e aos produtores de manufaturas a exportar seus produtos além-mar. Países com custos de transporte baixos tendem a ser mais abertos para o comércio exterior e, por conta disso, alcançam crescimento rapidamente. Água limpa e saneamento básico aumentam a qualidade do capital humano, assim majorando os níveis de produtividade do trabalho. O Banco Mundial estima que a cada 1% de aumento no estoque de infra-estrutura de uma nação está associado a 1% no nível do PIB. Outros estudos concluem que o investimento maior do leste asiático em relação à América Latina explana a diferença na obtenção de crescimento dentre as duas regiões.
Em documento recentemente lançado pela Goldman Sachs, argumenta-se que o gasto em infra-estrutura não é somente causa de crescimento econômico, mas conseqüência dele. A partir do enriquecimento das pessoas, há tendência de aumento da população nas cidades, o que acarreta em maior demanda por eletricidade, transportes, saneamento básico e moradia. Essa relação mútua leva ao crescimento econômico e investimento. O banco (GS) desenvolveu um modelo que usa as expectativas de crescimento na renda, urbanização e população para prever futuras demandas no que tange à infra-estrutura.
A Urbanização detém os maiores impactos nas demandas por eletricidade. Goldman calcula que 1% a mais de pessoas residindo em cidades, eleva em 1.8% a demanda de energia como capacidade natural instalada (disponível para consumo). Sendo 1% de aumento na renda per capita, considera-se 0,5% de pressão sobre a demanda existente. Reunindo todas essas constatações, a capacidade de eletricidade deve majorar-se em 140% na China e em 80% na Índia até os meados da próxima década (2008-2018). Viagens aéreas – e porquanto os aeroportos – verão a mais rápida expansão da demanda, porque é o mais sensível à demanda: a cada 1% de majoração da renda per capita tem como conseqüência 1,4% de aumento sobre o numero de pessoas que utilizam esse meio de transporte. Segundo previsões, a variação positiva em número de passageiros utilizando o transporte aéreo será de 350% e 200%, respectivamente, na China e na Índia.
Como o aumento da renda per capita e das taxas de urbanização tomam passo mais concreto na China, ela ultrapassará a Índia em níveis de infra-estrutura. China pode adicionar treze vezes mais linhas-fixas de telefone, sete vezes mais passageiros para vôos e seis vezes mais capacidade de geração de energia elétrica em cotejamento com a Índia. Brasil e Rússia, mais urbanizados e ricos (implicando menor crescimento da renda), verão crescimento mais modesto em infra-estrutura.
Exaurido Boom
Como as economias emergentes Irã o financiar todo esse gasto? As finanças da maioria dos países emergentes estão em boas condições. Como um grupo (BRIC), eles estão perto de um balanço estável, embora alguns, como a Índia, exibem grandes déficits. Mesmo assim, a vasta escala de investimentos necessitará de dinheiro do setor privado. Para atraí-lo, as economias emergentes deverão oferecer um retorno descente, o que irá requerer reformas no sistema regulatório e a mudança para negociações a preço de mercado (justas por vias de concorrência). Na Índia, somente a metade da energia consumida é efetivamente paga, porque ela é roubada ou as contas não são pagas, simplesmente. Portanto, a quantidade massiva de investimentos em infra-estrutura pode encorajar o desenvolvimento do mercado de títulos de longo prazo, amortecendo um pouco a sangria inerente.
O boom global em infra-estrutura tem implicações globais. Investimento majorado significa maior importação de bens de capital (máquinas), o que operará na redução do superávit comercial chinês e em outros locais, reduzindo as desigualdades mundiais em termos de troca. Demanda crescente por materiais de construção vai manter os preços das commodities em alta.Por último, mas não menos importante, será o impacto negativo no meio ambiente. Com 75% de acréscimo na demanda por eletricidade por parte dos países emergentes na próxima década, piorará a condição do ar e do aquecimento global. Muitos temem que o projeto da represa Três Gargantas, o maior projeto hidroelétrico do mundo, poderá causar grandes danos ao meio ambiente. O grus japonensis é o pássaro símbolo da China e está em extinção. Algumas pessoas gostariam que as gruas das construções também seguissem um caminho mais lento.
OBS: existem outros textos na mesma edição da THE ECONOMIST e que trazem a influência de Índia e China nos índices de poluição global para o futuro. Se tiverem interesse, gentileza notar
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segunda-feira, 9 de junho de 2008
Índia e China, dupla dinâmica!
Enquanto o Brasil vangloria-se da obtenção do grau de investimento (1) e da criação do FSB, descuida-se das suas relações exteriores. Ao invés de se coadunar com os seus contrapartes falidos do MERCOSUL (Argentina, Paraguai, Uruguai), deveria focalizar no âmbito multilateral, por exemplo, no que tange ao mercado africano. Ou será que o foco do Brasil continua sendo a posição de “celeiro do mundo”? Neste texto, analisamos a aproximação comercial que está em transito entre Índia e China, fomentada pela competição inerente das duas nações mais populosas do planeta e de características complementares que apresentam. Vejamos.
Neste momento de crise internacional no que diz respeito ao mercado alimentar, a África está sendo muito visada como destino de investimentos, seja por projetos da ONU e da FAO, ou de instituições privadas nacionais (especialmente Odebrecht e Grupo Votorantim) e internacionais (Grupo TATA, ONGC, Huawei). No que tange à Índia, a sua participação na formação do continente africano advém dos tempos de domínio britânico, onde mais de um milhão de trabalhadores indianos foram deslocados para a construção de ferrovias no leste da África (há descendência numerosa). Hoje em dia, a Índia trabalha sua postura de marketing através da venda de aparelhos celulares e serviços de internet a preços reduzidos, além de optar por investimentos centralizados em alta tecnologia (África do Sul) e exploração de recursos naturais diversos, como o petróleo angolano e nigeriano. Por parte da China, o que se vê é um diferente approach, visto que as estatais chinesas preferem optar por investimentos grandiosos em infra-estrutura e construção civil, em troca de benesses na extração de minérios e petróleo. Além disso, há concessão de empréstimos polpudos para nações com problemas de tirania. A única questão que aborrece os africanos é que eles preferem trazer chineses ao invés de alocar os trabalhadores locais nas obras. Este é um exemplo da influência dual dos colegas de denominação BRIC.
Segundo opinião de Tarun Khanna, um professor indiano da Harvard Business School, “their social and economic systems are vastly different [...] but they have strengths that could be complementary” (2). Segundo previsões, o comércio bilateral entre Índia e China alcançará US$ 40 bilhões em 2010, em especial, pelas grandes inversões de IED e aumento da classe média (a qual fomenta o consumo e a inflação). É pequeno em níveis brutos. Normalmente, o que ocorre é o seguinte: a Índia exporta matérias-primas (ferro, algodão, plásticos, pedras preciosas), acontecendo o processo de agregação de valor na China, sendo reexportado à Índia um produto pronto, como, a título de ilustração, os compostos orgânicos que são utilizados pelas empresas farmacêuticas indianas. Se você reparar na questão do número de pessoas com aparelho celular na Índia, verá que o custo dele é baixo, tanto quanto o é da ligação. A partir daí, vemos a união da capacidade de outsourcing indiana (serviços de administração e controle produtivo das gigantes como WIPRO, TCS, INFOSYS) e a capacidade manufatureira chinesa (sublinhando a participação da Huawei, produtora de aparelhos de telecomunicações, considerada uma das multinacionais dos países emergentes). Como nos diz Pradipta Bagchi, gerente de comunicações corporativas da Tata Consultancy Services (TCS) em Mumbai, “ some guy is making a part in China, some Guy is making something in Korea and they are putting it together in Japan and shipping it to the US. The need for technology to keep people talking to each other is very important” (3). A grande vantagem dessa relação Índia-China está na escala potencial dos mercados (40% da população mundial – 2,4 bilhões) e do poderia privado intrínseco.
Se a extensão e profundidade da recessão norte-americana não forem realmente extremas, e a corrente de globalização continuar, há previsão de que, para 2050, considerando-se níveis de crescimento atuais de 11% e 9%, respectivamente, para China e Índia, veremos uma nova classificação no que tange ao tamanho das economias do mundo (1° China, 2° EUA, 3° Índia). Apesar disso, como nos apontam a revista Global Finance (4) e The Economist (5), há ainda postura protecionista no que tange ao mercado de capitais, o que é um problema em tempos de crise de crédito. Muitas outras reflexões ainda são pertinentes, como a questão do impacto ambiental dessas nações (altamente dependentes do carvão e petróleo) e de problemáticas políticas inerentes ao seu sistema de mercado que mescla subsídios públicos e investimentos privados. Abaixo, ampla bibliografia para que os leitores do blog aprofundem-se no assunto.
Fontes e citações:
(1) Para ver mais sobre detalhes da concessão de grau de investimento, notar: http://economiapratica.blogspot.com/search?q=grau+de+investimento e também o infográfico magnífico disponível no site do Estadão - http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowEspeciais!destaque.action?destaque.idEspeciais=610
(2) Tradução livre: Os sistemas econômico e social deles são vastamente diferentes [...] mas eles tem capacidades que podem ser complementares. Sobre as opiniões de Tarun Khanna, acompanhe a entrevista disponível em inglês em http://hbswk.hbs.edu/item/5766.html. Caso seja necessária a tradução, favor solicitar no mail matbonetto@terra.com.br
(3) Tradução livre:"alguém está produzindo uma parte na China, outro está fazendo algo na Córeia e eles estão unindo tudo no Japão, para depois enviar ao Estados Unidos. A necessidade de tecnologia para manter as pessoas se comunicando é fundamental".
(4) Vejam a reportagem na íntegra em inglês, da Revista Global Finance, em http://www.gfmag.com/index.php?idPage=858
(5) Verificar reportangens em inglês no site da Revista The Economist
Neste momento de crise internacional no que diz respeito ao mercado alimentar, a África está sendo muito visada como destino de investimentos, seja por projetos da ONU e da FAO, ou de instituições privadas nacionais (especialmente Odebrecht e Grupo Votorantim) e internacionais (Grupo TATA, ONGC, Huawei). No que tange à Índia, a sua participação na formação do continente africano advém dos tempos de domínio britânico, onde mais de um milhão de trabalhadores indianos foram deslocados para a construção de ferrovias no leste da África (há descendência numerosa). Hoje em dia, a Índia trabalha sua postura de marketing através da venda de aparelhos celulares e serviços de internet a preços reduzidos, além de optar por investimentos centralizados em alta tecnologia (África do Sul) e exploração de recursos naturais diversos, como o petróleo angolano e nigeriano. Por parte da China, o que se vê é um diferente approach, visto que as estatais chinesas preferem optar por investimentos grandiosos em infra-estrutura e construção civil, em troca de benesses na extração de minérios e petróleo. Além disso, há concessão de empréstimos polpudos para nações com problemas de tirania. A única questão que aborrece os africanos é que eles preferem trazer chineses ao invés de alocar os trabalhadores locais nas obras. Este é um exemplo da influência dual dos colegas de denominação BRIC.
Segundo opinião de Tarun Khanna, um professor indiano da Harvard Business School, “their social and economic systems are vastly different [...] but they have strengths that could be complementary” (2). Segundo previsões, o comércio bilateral entre Índia e China alcançará US$ 40 bilhões em 2010, em especial, pelas grandes inversões de IED e aumento da classe média (a qual fomenta o consumo e a inflação). É pequeno em níveis brutos. Normalmente, o que ocorre é o seguinte: a Índia exporta matérias-primas (ferro, algodão, plásticos, pedras preciosas), acontecendo o processo de agregação de valor na China, sendo reexportado à Índia um produto pronto, como, a título de ilustração, os compostos orgânicos que são utilizados pelas empresas farmacêuticas indianas. Se você reparar na questão do número de pessoas com aparelho celular na Índia, verá que o custo dele é baixo, tanto quanto o é da ligação. A partir daí, vemos a união da capacidade de outsourcing indiana (serviços de administração e controle produtivo das gigantes como WIPRO, TCS, INFOSYS) e a capacidade manufatureira chinesa (sublinhando a participação da Huawei, produtora de aparelhos de telecomunicações, considerada uma das multinacionais dos países emergentes). Como nos diz Pradipta Bagchi, gerente de comunicações corporativas da Tata Consultancy Services (TCS) em Mumbai, “ some guy is making a part in China, some Guy is making something in Korea and they are putting it together in Japan and shipping it to the US. The need for technology to keep people talking to each other is very important” (3). A grande vantagem dessa relação Índia-China está na escala potencial dos mercados (40% da população mundial – 2,4 bilhões) e do poderia privado intrínseco.
Se a extensão e profundidade da recessão norte-americana não forem realmente extremas, e a corrente de globalização continuar, há previsão de que, para 2050, considerando-se níveis de crescimento atuais de 11% e 9%, respectivamente, para China e Índia, veremos uma nova classificação no que tange ao tamanho das economias do mundo (1° China, 2° EUA, 3° Índia). Apesar disso, como nos apontam a revista Global Finance (4) e The Economist (5), há ainda postura protecionista no que tange ao mercado de capitais, o que é um problema em tempos de crise de crédito. Muitas outras reflexões ainda são pertinentes, como a questão do impacto ambiental dessas nações (altamente dependentes do carvão e petróleo) e de problemáticas políticas inerentes ao seu sistema de mercado que mescla subsídios públicos e investimentos privados. Abaixo, ampla bibliografia para que os leitores do blog aprofundem-se no assunto.
Fontes e citações:
(1) Para ver mais sobre detalhes da concessão de grau de investimento, notar: http://economiapratica.blogspot.com/search?q=grau+de+investimento e também o infográfico magnífico disponível no site do Estadão - http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowEspeciais!destaque.action?destaque.idEspeciais=610
(2) Tradução livre: Os sistemas econômico e social deles são vastamente diferentes [...] mas eles tem capacidades que podem ser complementares. Sobre as opiniões de Tarun Khanna, acompanhe a entrevista disponível em inglês em http://hbswk.hbs.edu/item/5766.html. Caso seja necessária a tradução, favor solicitar no mail matbonetto@terra.com.br
(3) Tradução livre:"alguém está produzindo uma parte na China, outro está fazendo algo na Córeia e eles estão unindo tudo no Japão, para depois enviar ao Estados Unidos. A necessidade de tecnologia para manter as pessoas se comunicando é fundamental".
(4) Vejam a reportagem na íntegra em inglês, da Revista Global Finance, em http://www.gfmag.com/index.php?idPage=858
(5) Verificar reportangens em inglês no site da Revista The Economist
- http://www.economist.com/finance/displaystory.cfm?story_id=11488749&CFID=8779783&CFTOKEN=10251142
- http://www.economist.com/displayStory.cfm?story_id=11117571
Obs: quaisquer traduções que sejam necessárias ref. às fontes informadas, serão disponibilizadas gratuitamente via solicitação de mail matbonetto@terra.com.br . O tempo de tradução varia de cada publicação, sendo o máximo de três dias.
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