quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mexendo na sua poupança

Por Matheus Pacini e Daniel Simões

Remontando ainda ao período do Império do Brasil (1822-1889) (1), sendo produto da criação da Caixa Econômica da Corte (atual CAIXA) e pensada, em parte, por Dom Pedro II, a caderneta de poupança, desde a sua origem, objetiva ser uma reserva monetária para as camadas mais humildes da população, para as quais se torna um porto-seguro, onde suas economias serão mantidas, com vistas à utilização em momentos de aperto financeiro, ou mesmo como auxílio na velhice. É uma definição “romântica” que vem sendo historicamente utilizada pelos políticos do nosso Brasil.

E pelas ironias da vida, ela está sendo ameaçada pelas garras do Leão. O projeto de lei, proposto pelo Ministério da Fazenda, prevê a taxação dos rendimentos sobre o saldo excedente a R$ 50.000,00 que um indivíduo possua aplicado na caderneta. Isso vindo de um governo, supostamente, popular ou dos trabalhadores.

A ação governamental tem como propósito primordial a não-equiparação dos rendimentos da poupança, em termos de rentabilidade, aos títulos públicos e privados, pois Guido Mantega teme que os grandes investidores em títulos decidam transferir seus capitais para poupança, já que a remuneração dos títulos dá-se principalmente pela SELIC, atualmente em queda.


A taxa básica de juros nos últimos cinco anos despencou de 19,75%, em meados de 2005, para 8,75%, no patamar atual. Segundo dados do Banco Central, o saldo total da caderneta de poupança aumentou em 85% nesse mesmo período. Afirmar que redução de 11 p.p. da SELIC foi responsável por esse aumento necessita de um estudo mais específico. O fato é que a poupança tornou-se, como se pode concluir da tabela acima, uma aplicação que ganhou destaque, principalmente quando se trata de aplicação de renda fixa. Observe que apesar do rendimento da poupança ter-se reduzido, aproximou-se das aplicações como CDB (Certificado de Depósito Bancário) e dos Fundos de Investimento Extramercado.

E porque o governo emite títulos? Porque o governo federal gasta mais do que arrecada. Isso gera déficit e só tem duas saídas: ou o governo emite dinheiro sem lastro provocando inflação, ou apela para o mercado e vende títulos financeiros representativos da dívida pública. Se o déficit continua crescendo, o governo vende mais títulos e vai se endividando cada vez mais. Para a dívida parar de crescer só há dois caminhos: novos tipos de impostos (ou aumento das alíquotas dos existentes) e, outro não tão popular, especialmente em época eleitoral, a redução das despesas.

É prudente abrir um parêntesis aqui, para brindar o sarcasmo no fato de considerar como “abastados” pessoas que têm uma poupança de R$ 50.000,00. Acredito fielmente que se fôssemos perguntar aos proprietários de tais fundos para que o dinheiro seria utilizado, provavelmente, mencionar-se-ia o casamento de um dos filhos, o sonho de construir uma casa ou, até mesmo, a vontade de comprar um trator. Em todo caso, devia-se perguntar ao Sr. Guido Mantega a razão pela qual não são taxados os ganhos oriundos da especulação financeira feita por estrangeiros, que totalizam muito mais do que R$ 50.000,00/especulador?

Nessa questão, como em todas as outras, a maior parte da população interpreta o fato (intenção de taxar a poupança) isoladamente de um contexto, parecendo que as decisões de política pública são meros arranjos do acaso. Frente ao exposto, por exemplo, na revista Conjuntura Econômica (Setembro/2009), no espaço da Carta do IBRE, “A carga tributária e os nossos dilemas”, não há o consenso sobre qual é o papel que o Estado deve exercer nas nossas vidas (e o que queremos verdadeiramente financiar via tributação). Caso não ocorra um debate franco dentro da sociedade como um todo, podemos comprometer quaisquer chances de um real crescimento estável de longo prazo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tradução The Economist - "The nature of wealth"

Hoje em dia é complexa a definição do que é riqueza em termos reais e em termos financeiros. Este texto, "A natureza da riqueza", traduzido por mim, dá-nos um pouco de luz sobre a questão. O original, da revista The Economist, pode ser acessado em

http://www.economist.com/businessfinance/displaystory.cfm?story_id=14587262

Buttonwood

A Natureza da Riqueza

O mundo confundiu propriedades de origem financeira com as reais

No cerne da crise atual está a confusão fundamental sobre a natureza da riqueza. Pense nisso da perspectiva de um “marciano”. Fosse a um extraterrestre mostrado um quarto com lingotes de ouro, pilhas de notas de 20 dólares e uma série de números na tela de um computador, ele poderia ficar confuso em relação as suas funções. Nossa reverência por esses objetos pode parecer bizarra a ele como o comportamento do macho Construtor-de-Cetim (o qual decora o seu ninho com objetos brilhantes para atrair uma parceira) parece a nós.

Riqueza consiste de mercadorias e produtos que desejamos consumir ou de coisas (fábricas, maquinários e força de trabalho educada) que nos possibilitam produzir mais de tais mercadorias e serviços. Ativos financeiros surgem do desejo de postergar o consumo de forma que o dinheiro possa ser salvo, ou por motivos de precaução ou para investir com o objetivo de se consumir mais bens e serviços no futuro.

Visto dessa forma, o ativo financeiro não é “riqueza”, mas um clamor sobre a riqueza real. Se esses clamores multiplicam-se ou aumentam de preço, isso não significa que a riqueza agregada tenha aumentado. Se uma pizza é cortada em oito ao invés de quatro pedaços, não existe mais alimento a ser comido. Se a cada pessoa sentada na mesa dá-se frações de uma pizza, e o preço de cada fração aumenta de US$ 1 para US$ 2, a refeição continuará do mesmo tamanho.

A razão cabal pela qual o valor dos papéis (ações) cresce com o passar do tempo, por exemplo, é que elas estão ligadas aos bens e serviços produzidos pelas companhias. Ao passo que há crescimento da economia, ocorre o aumento das receitas de tais firmas. Assumindo que as margens permaneçam as mesmas com o passar do tempo, os lucros irão aumentar e, da mesma forma, o fluxo de dinheiro para os acionistas.

Essa verdade é obscurecida pelo ciclo econômico, a qual faz com que as receitas e as margens flutuem, e pelas vicissitudes do sentimento do investidor, o qual faz com que os pedaços (ações) sejam desvalorizados ou revalorizados (o retorno sobre o dividendo em alta e baixa). Um aumento no preço da ação que é conseqüência de um re-rateio não nos torna mais ricos no agregado, ao menos que o re-rateio represente uma predição acurada sobre uma melhoria na taxa de crescimento da economia no longo prazo.

No entanto, as pessoas utilizam a Bolsa de Valores como um barômetro da saúde econômica. Dessa forma, um aumento no mercado acionário pode ser (e tem sido) visto pelo governo e os banqueiros centrais como uma evidência que a economia está tomando o caminho certo. Isso pode conduzir a erros de política, como uma postura monetária frouxa, e mais exuberância irracional.

O mercado imobiliário é mais complicado do que o acionário, visto que as pessoas utilizam as suas casas (abrigo, relaxamento) enquanto, simultaneamente, tratam-nas como propriedades. Mesmo assim, um aumento no preço das casas que supere o crescimento econômico (em %) não torna a sociedade mais rica. Ao invés disso, tudo que é alcançado é a transferência de riqueza dos novos compradores para os aposentados que estão saindo do mercado de propriedades.

Na teoria, os preços dos imóveis podem aumentar mais rápido do que o PIB por algum tempo se os cidadãos decidirem devotar mais de sua renda para adquirir imóveis (por exemplo, eles podem preferir um apartamento maior a um carro maior). Na prática, é difícil separar tais mudanças estruturais da especulação que é proeminente em todos os booms de propriedade.

É a ligação entre a especulação e o preço das ações que explica a crise. A habilidade de se tomar emprestado dinheiro para comprar ações fomentou a subida dos preços das ações. E o efeito-riqueza sobre a valorização dos preços persuadiu aos países de língua inglesa a tomar emprestado dinheiro para sustentar o consumo.

Alguns meses atrás, A BBC transmitiu um programa sobre o uso do cartão de crédito. Um homem falou que se sentia “mais rico” porque ele tinha sido premiado com um limite de crédito de cinco mil libras (US$ 8,000). É claro que, assim que usou o cartão ele estava mais pobre. Não somente ele teve de pagar as 5 mil libras, como também a taxa de juros de dois dígitos. Similarmente, aqueles que compram uma ação supervalorizada com dinheiro emprestado não se tornaram mais ricos, mas sim, pobres.

Pensar sobre a riqueza dessa forma também é útil quando se tratando de pacotes de resgate para a economia. Essas propostas irão aumentar a quantidade de mercadorias e serviços que a economia produz no longo prazo, ou terão conseqüências que, na verdade, restringem a atividade econômica? Será que a política de quantitative easing realmente alimenta a criação de riqueza ou simplesmente cria mais “direitos” em relação a um conjunto de propriedades já existentes (especulação)?

Os bancos centrais estão repetidamente intervindo para salvar os mercados financeiros, ou riqueza de papel, nos últimos 20 anos. Mas eles levaram os preços a níveis que simplesmente não refletiam os fundamentos de longo prazo? Os esquemas engenhosos de John Law, um financista do século XVIII, para manter o valor das ações da trading do Mississipi não foram vitoriosos no final, por que o delta não era o El Dorado prometido aos investidores, porém um fétido lamaçal.

domingo, 6 de setembro de 2009

Tradução da Revista The Economist - "Follow the money"

Confiram abaixo um artigo sobre a oferta de crédito e suas alocações, no caso da China. Tradução livre, sendo que o original (em inglês) está disponível para download em http://www.economist.com/businessfinance/displaystory.cfm?story_id=14327673

Empréstimos bancários chineses
Siga o dinheiro

HONG KONG
Onde a enxurrada de crédito está indo?

O aumento na concessão de crédito pelos bancos chineses nesse ano parcialmente explica a recuperação econômica daquele país de forma mais rápida em comparação a outras grandes economias. Se, como muitos investidores temem, o governo já fechou a torneira creditícia, isso poderia comprometer o crescimento econômico. Um olhar atento às estatísticas, entretanto, sugere o contrário.

Novos empréstimos bancários, realmente, diminuíram consideravelmente em julho, para 356 bilhões de yuans (US$ 52 bilhões de dólares) de 1.52 trilhões de yuans em junho. "Empréstimos bancários na China caíram em 77%", diziam as notícias. Contudo, os empréstimos sempre desaceleram na segunda parte do ano; o passo de crescimento em doze meses é uma melhor medida. Em análise ano-a-ano, os empréstimos cresceram um impressionante 34% em julho, semelhante a junho. Ademais, a queda em novas concessóes em julho majoritariamente refletia uma queda nas contas de curto-prazo; empréstimo de médio e longo prazo para firmas e famílias continuaram a crescer fortemente. E uma grande parte dos depósitos às empresas, feitos no início do ano, foram dirigidos às contas correntes. Então, apesar de lucros em queda, os depósitos (poupança) corporativos subiram para 35% sob análise dos últimos doze meses. Isso as deixa com dinheiro de sobra para financiar investimento, e dessa forma sustentar a recuperação, mesmo com o aperto pelo lado governamental.

Que sobre a preocupação geral que uma quantidade não saudável de novos empréstimos ter sido usada para especular nos mercados acionários, deixando bancos perigosamente expostos? Os bancos chineses são oficialmente proibidos de emprestar a investidores para a compra de ações, contudo, o dinheiro é intercambiável. Firmas podem direcionar empréstimos oferecidos ao investimento para apostar na bolsa de valores. De acordo com uma estimativa largamente utilizada, 20% de todos os novos empréstimos desse ano tiveram como destino o mercado acionário. Some-se construção civil e commodities, e quase a metade de todo o dinheiro concedido pode ter acabado nesses três mercados há pouco mencionados.

Tao Wang, um economista do UBS, reconhece que essas estimativas são irresponsáveis. Baseado em informações publicadas, novas entradas de dinheiro na bolsa de valores e o total de importações de metais juntos registraram o valor de 660 bilhões de yuans na primeira metade do ano. Isso é equivalente a menos do que 10% de tudo que foi emprestado, e somente uma fração do que poderia racionalmente ser financiado por empréstimos. Grande parte daquele, 12%, foi direcionado a imóveis, no entanto, não por especuladores, mas de parte de pessoas que estavam adquirindo sua primeira moradia.

Alguns dos empréstimos certamente foram para os mercados acionários, diz Ms Wang, mas a maioria foi parar na economia real, mormente investimentos em infra-estrutura. Mesmo com uma pequena fatia indo para a bolsa de valores (mais a expectativa de muito ainda ir) ainda se poderá verificar um grande impacto nos preços. Porém, até o momento, tais riscos ainda são exagerados.

domingo, 16 de agosto de 2009

Perspectivas Econômicas - As Américas - FMI / Junho de 2009 - Parte Final

Após uma revisão concisa sobre os Estados Unidos e Canadá, segue abaixo a segunda e última parte da análise, desta vez, relativa à América Latina. Como informado na parte I, você pode fazer o download o arquivo na íntegra diretamente do site do FMI. São 104 páginas recheadas de previsões, gráficos e cenários econométricos. Iniciemos.

Perspectivas para América Latina

Os choques externos estão pressionando a região duplamente, tanto pelo lado das contas de capital, como também pela conta corrente da balança de pagamentos. Entre os canais de propagação, destacam-se: I) condições mais restritivas de crédito; II) redução das exportações da região; iii) forte desvalorização dos preços das matérias-primas e iv) redução das remessas e do turismo.

Avaliando ponto a ponto, encetamos pelas condições financeiras (de crédito) externas mais restritivas. De certa forma, desde meados de 2007, por causa das hipotecas, o mercado desenvolvido já vinha sofrendo oscilações no preço dos seus ativos. Após novembro de 2008, os efeitos da balbúrdia norte-americana (compartilhada e sustentada pelos europeus, em especial) já se tornavam sistêmicos, incorrendo em desestabilização nos países latino-americanos, isto posto, desvalorização no mercado acionário, aumento dos spreads sobre títulos da dívida desses países, redução do IED.

Em segundo lugar, ocorreu e ainda ocorre uma “freiada” na demanda por exportações. Este canal tem sido menos importante em termos gerais no contágio, tendo em vista que a participação da América Latina no comércio internacional como porcentagem total é pífia, sendo que o maior afetado foi o Brasil, o mais “influente”, participante dos BRICs, pela diversificação existente na tua cesta de tradables.

O terceiro aspecto, a queda brusca e tonitruante nos valores das matérias-primas e commodities, foi fator de pânico para a maioria dos países da América do Sul (Brasil, Argentina, Venezuela, Chile, etc) já que dentre seus principais produtos exportados estão hidrocarbonetos, metais brutos e cereais, sendo que de suas receitas é formado o grosso das reservas internacionais e mantido o equilíbrio das contas externas em superávit. Em contrapartida, grosso modo, os países formadores da América Central, majoritariamente importadores, acabaram sendo favorecidos. Infelizmente, em pequena medida.

O quarto ponto, que se refere às remessas e ao turismo, apresenta um panorama negativo, sabido que com a redução da atividade econômica nos países ricos, a mão-de-obra imigrante, preferencialmente localizada na construção civil, perde o emprego e, por conseguinte, pouco tem a remeter a seus países de origem. Em alguns casos, pelo menos temporariamente, como na Colômbia e no México, os efeitos de tal conjuntura foram dirimidos e até subvertidos pelo fato da desvalorização cambial que manteve o valor em dólares das remessas. Não esqueçamos, porém, que as remessas constituem uma parte relevante do PIB no que tange a países menores (como Bolívia, Colômbia e vários representantes na América Central).

Respostas de política econômica

Em contra aos aspectos negativos supracitados, verificamos uma atitude anticíclica dos governos, sem incorrer, na sua maioria (o que é importante) em política de aumento de juros dos títulos públicos como forma de atração de capitais. Vejamos.

  1. Provisão de Liquidez: visto que havia risco de crise financeira sistêmica, inclusive, nos sistemas bancários dos países latino-americanos (mesmo que em menor grau aqui no Brasil), os países, na grande maioria, adotaram medidas que garantiam a estabilidade monetária, pelos canais de:

I) Injeção de capitais no mercado (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica,Guatemala, México e Peru);

II) Janela do redesconto* (Brasil, Costa Rica e México);

III) Diminuição dos requerimentos de segurança de bancos para com o Banco Central (Argentina, Brasil, Colômbia, República Dominicana, Honduras, Paraguai e Peru);

IV) Apoio à refinanciação das dívidas das empresas (em dólares) via uso das reservas internacionais (Brasil) e, não menos importante,

V) Acesso a swaps providos pelo FED (México)

  1. Afrouxamento da Política Monetária: praticamente todos os países aplicaram medidas de redução das taxas básicas de juros, de forma a, teoricamente ao menos, fortalecer a atividade econômica e diminuir o peso da dívida pública sobre o orçamento. Uma das exceções foi a Jamaica, que descuidou muito no que tange à relação dívida / PIB, acabando por despertar um surto inflacionário.
A guisa de conclusão saliento que todos os relatórios do FMI são interessantes, onde se pode retirar informações estatísticas e econométricas valiosas. Qualquer dúvida, sintam-se à vontade para questionar e sugerir temas para os próximos tópicos.

domingo, 21 de junho de 2009

Perspectivas Econômicas - As Américas - FMI / Junho de 2009

De modo a reiterar seu comprometimento com a informação publicada pelos organismos internacionais, somente aqui no blog Economia Prática, você confere um resumo qualificado do tratado no recém lançado Regional Economic Outlook – Western Hemisphere (disponível para download em (1). O documento explicita vários aspectos da economia nas Américas. Confira.

PANORAMA PARA OS ESTADOS UNIDOS

Há apenas dois anos atrás, nos Estados Unidos, o crescimento econômico era robusto, onde abundava liquidez para a especulação no mercado de ações e aquisição de empréstimos para a compra de imóveis (hipotecas). As principais instituições financeiras aproveitavam-se de um marco regulatório fraco para criar novos “produtos”, de alta lucratividade e risco teoricamente baixo, mediante um processo de inovação obtuso e sem segurança comprovada. O alicerce de tal comportamento era o aumento contínuo do valor das residências (e o incentivo conseqüente para a construção civil); contudo, quando se iniciou um processo de rachaduras em tal base, isto é, deflação no valor dos ativos e paradas nas obras, a verdade tornou-se visível: os tomadores de empréstimo, endividados e insolventes, não poderiam pagar os bancos, gerando um efeito dominó de retenção de crédito e aumento da taxa de juros generalizada na economia.

Esse panorama de default causou a falência de instituições como o Lehman Brothers, forçando a Reserva Federal há iniciar uma política de recapitalização bancária holística (discutida calorosamente no meio político e econômico), com o intuito de evitar uma crise sistêmica. Apesar de tais medidas, os spreads continuam relativamente altos, tanto para pessoa jurídica quanto física. Tendo em vista a ineficiência da política monetária por si só na resolução do problema da crise, a política fiscal foi acionada através da aprovação de um Plano de Estabilidade Financeira (2) pelo Congresso de 5% do PIB a ser gasto na renovação da infra-estrutura, saúde, educação e na reoxigenação do sistema financeiro.

Segundo a análise do FMI, os Estados Unidos, que já está em recessão desde dezembro de 2007, não apresenta chances de recuperação satisfatória no primeiro semestre de 2009, o que preocupa os mais de 600 mil afetados pelo desemprego (8,5% da PEA). A projeção de crescimento encontra-se atualmente em -2,8% para 2009, visto que, um dólar forte inibe as exportações e uma inflação baixa internamente, as importações.

PANORAMA PARA O CANADÁ

Cerca de três quartos de suas exportações têm destino como os Estados Unidos, logo, a atual crise está sendo sentido na sua plenitude no Canadá, onde se registrou contração do PIB em 3,4% no último semestre do ano passado. No entanto, esse país localiza-se em uma posição benigna (fruto de superávits primários e estabilidade de preços), além de contar com instituições bancárias com sólidos balanços, produto de um marco regulatório organizado e avesso ao risco (3). Dessa forma, os efeitos da execução das políticas monetária e fiscal serão amplamente impactantes na economia como um todo, porém só no médio prazo.

(1) http://www.imf.org/external/pubs/ft/reo/2009/WHD/ENG/wreo0509.htm
(2) Financial Stability Plan – disponível para download, em inglês, em http://www.slideshare.net/LegalDocs/us-financial-stability-plan-2009
(3) Os balanços estão em equilíbrio. Contudo, ao passo que a queda da atividade econômica e a deflação mantenham continuidade, irá vingar uma postura cautelosa nos empréstimos.