Operação do Regime de Metas
Após reuniões mensais em que se define da taxa de juros Selic, o BC divulga ata contendo a análise de conjuntura e a justificativa da decisão. A decisão do rumo da SELIC é tomada sob os auspícios de três variáveis chaves:
- Expectativa de inflação do mercado. A evolução da expectativa de inflação (do ano corrente, ano posterior e 12 meses) do mercado (consumidores, trabalhadores, produtores) exerce papel fundamental na condução da política econômica do Brasil, visto que decisões de investimento, consumo, reajuste de preços e salários, entre outras, são freqüentemente tomadas com vistas à evolução futura da inflação. O grande gargalo desse aspecto é confiar cegamente em expectativas mercadológicas , o qual tem grande dificuldade de prever níveis de inflação em ambiente de grandes choques de preços como ocorre nesse momento em âmbito global. Logo, atribuir carga tão importante a esse indicador é um risco gravíssimo nas possibilidades de expansão de crescimento econômico. Tanto que, a título de curiosidade, o Banco Central da Nova Zelândia, o primeiro a adotar o regime de metas, informa: “os indicadores de expectativa de inflação não são acurados enquanto preditores do nível de inflação, embora possam ser úteis para análises de curto prazo”.
- Hiato do Produto. O BC acompanha o ritmo de crescimento do produto efetivo e o compara com o que seria o produto potencial (máximo que a economia pode produzir sem gerar pressão inflacionária). Isto quer dizer que, quando há aproximação dos dois indicadores, é sinal de que ocorre descompasso na relação entre demanda e oferta. Cabe ressaltar que o aparelhamento utilizado na projeção do produto potencial é feita através de modelos econômicos (com suas simplificações e hipóteses), os quais, por exemplo, negligenciam a possibilidade do aumento da produtividade sem a ampliação da capacidade produtiva - isto é, capacidade ociosa do empreendimento, horas extras e investimentos pontuais não existem na teoria.
- Por último, mas não menos importante, existe o risco dos “choques de preços”, geralmente associados a crises nas quais se assiste a um súbito aumento da incerteza e da aversão ao risco, com impacto imediato no câmbio (2).
Risco inflacionário e a política do BC na prática
A inflação é um fenômeno complexo (3). Um dos principais culpados pela inflação atual é o gasto público: custeio com salários e as históricas indexações (contratos, Previdência, serviços públicos), além das vinculações constitucionais que se constituem um problema macro e micro. No âmbito macro, prejudicam o ajuste fiscal. Por outro lado, na questão micro, geram ineficiências alocativas de recursos escassos. Não se pode negar que ela é na verdade uma “reserva de mercado” dentro do orçamento para alguns setores de Estado, herança da constituição de 1988 e sua preocupação com a “carência de recursos”. Constata-se que se quer um regime democrático efetivo, o qual deveria se preocupar com a qualidade do serviço público disponível à população e não com a quantidade de recursos despejados nos córregos setoriais. Em verdade, não se acredita no perfil democrático como diretriz de alocação dos recursos públicos.
Na década de 50, o M1 – meio de pagamento tradicional – representava 60% do PIB, sendo que hoje está com presença menor do que 6%. O que aumentou, então, foi a velocidade de circulação da moeda, o que acaba por desmentir, em parte, os estudos de Friedman, Fisher e companhia. Como o BC adere a essa linha de pensamento monetarista, no mínimo, deveria controlar o que ficou conhecido como agregados econômicos (M1-M2-M3-M4), entretanto, não é o que se percebe segundo os dados abaixo do ano de 2007:
- Volume de M1 aumentou em 23,2%, o M2 em 18,1% e M4 em 20,9%.
- A expansão do crédito (empréstimos financeiros) atingiu 27,8% comparado com a inflação de 4,5% medida pelo IBGE.
Aumentando a taxa de juro (SELIC), a qual determina a remuneração dos Fundos de renda fixa, logicamente, o BC induz algumas pessoas a trocar parte do seu consumo presente pelos rendimentos estáveis de poupança. A única questão é que os bancos re-emprestam esses Fundos, o que significa: o nível de liquidez geral não se altera consideravelmente. Assim, com o aumento da SELIC, aumentamos o já caótico déficit orçamentário e a dívida pública.
Agora, após a concessão de investment grade por parte da S&P e a Fitch, podemos esperar que vá ocorrer a enxurrada de hot money em direção aos nossos títulos públicos (carry-trade), enquanto o BC continuará com a compra de reservas cambiais, aplicando-as em investimentos de baixo retorno, enquanto paga taxas salgadas aos investidores internacionais, sedentos de um upgrade nos seus portfólios.
Fontes para Pesquisa:
(1) Para ler a Carta de Conjuntura da CNC, notar:
http://www.portaldocomercio.org.br/media/Sintese15062008.pdf
(2) Pesquisa da FIESP sobre as metas de inflação e sua relação com o câmbio, notar:
http://www.fiesp.com.br/economia/pdf/regime_metas_infla%C3%A7ao.pdf
(3) Para os tipos de inflação e os produtos que estão sofrendo com o aumento generalizado dos preços, acesse, respectivamente:
http://www.economiabr.net/economia/4_inflacao.html
Outros arquivos que falham da ineficiência dos Bancos Centrais aqui no blog:
http://economiapratica.blogspot.com/2008/04/nighmares-of-central-banker-pesadelos.html
